Por Rachel Sharansky Danziger
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Fidel Castro e Yasser Arafat. Um dos muitos posters palestinos em solidariedade a Cuba

A Orquestra Filarmônica de Moscou estava se apresentando no Royal Festival Hall em Londres. No meio da apresentação, jovens tiraram suas roupas revelando os uniformes por baixo, algemaram-se nos balcões, e gritaram slogans. Eles se aproveitaram da pausa musical para serem ouvidos, via BBC, na URSS. Como disse uma das jovens: “Perdi a coragem e não achei que conseguiria. A única coisa, a única coisa, que me manteve, foi a lembrança de Natan em sua cela solitária, o pensamento de que ele nunca veria Avital de novo.”
Natan se casara em 1977, com Avital; em seguida fora preso. Ficaram sem se ver até 1986, quando ele foi solto.
Rachel é filha deles, e ela lembra da ocasião em que O Partido dos Trabalhadores Unidos declarara que estava “horrorizado por saber do grande desastre que recaira sobre as nações […] de toda a humanidade progressista. Comunidades inteiras expressavam o mesmo pesar e horror. Adultos choravam e lamentavam.
O partido era de Israel e o pesar era pela morte do líder, Joseph Stalin, o homem que mandara milhões de cidadãos soviéticos para a tortura, prisão e morte e mantivera muitos mais em estado de terror perpétuo. A maioria dos enlutados mundo afora, não sabia nada sobre os crimes de seu ídolo, porque eles não eram conhecidos fora da URSS. As pessoas estavam chorando por um líder que tinha sido um monstro. Mas não sabiam isso à época.
Diante disso, Rachel pergunta:
“As pessoas que fazem eulogias a Fidel Castro hoje, lamentam-se da mesma forma?”
Cuba é louvada por sua liderança mundial nos índices de educação e saúde. Os argumentos contra são : os índices antes da revolução de Fidel eram ainda maiores; e os índices atuais, além de não serem confirmáveis, contradizem a realidade cubana a que se tem acesso.
 Fidel Castro mandou executar homossexuais, as pessoas são presas por delito de opinião, são proibidas de deixar o país, o contato com estrangeiros é restrito, assim como a comida, os itens de higiene pessoal, a internet, e o jornal é do governo. 

Líderes mundias obrigatoriamente têm conhecimento da verdade. mas insistem em qualificar Fidel como ambíguo” e” complexo”, e de possuir “determinação”, “sonhos”, e “coragem”. Rodrigo Constantino oferece uma seleção de livros desmistificadores e rebate essas qualificações:

“Ninguém falaria do “outro lado” de Hitler, ou se o fizer, como já fez Lula, então é prova de sua própria psicopatia. Nada, absolutamente nada justifica um Hitler, como nada justifica um Fidel Castro. Foram monstros assassinos, frios e cruéis, implacáveis, dispostos a praticar genocídio para permanecer no poder. Quem alivia a barra desses tiranos só para alimentar seu ódio e sua inveja aos americanos precisa de uma terapia urgente.

Rachel mostra o paralelo no tratamento a ambos ditadores:
 “Muitos políticos ocidentais continuaram a reverenciar o próprio Stalin mesmo depois de seu desmascaramento.  Eles tentaram ativamente esconder a verdade ou descartá-la como irrelevante em comparação com as contribuições do tirano soviético para seu povo e a humanidade. Olhando para trás, suas ações parecem ridículas. E ainda assim estamos aqui, observando como nossos líderes seguem o mesmo padrão.
 É fácil, para nós, elogiarmos Castro […] sabendo que ninguém vai nos prender por expressar essas opiniões, enquanto nós desfrutamos do conforto de nossas vidas capitalistas.
 
É fácil, mas também é perigoso e cruel. Envia uma mensagem aos ditadores de todos os lugares, dizendo-lhes que, se usarem as slogans corretos, nós e nossos líderes, eleitos, não os responsabilizaremos nem ficaremos em seu caminho. Isso os deixa livres para oprimir e assassinar. E isso desencoraja os milhões, que sofrem sob seu governo, de buscar a mudança, mostrando que nós, seus únicos aliados possíveis, não nos importamos com sua dor.
 
Ao elogiar Castro, não estamos simplesmente descartando o sofrimento de seu povo. Também estamos abandonando pessoas como Raif Badawi (o bravo blogueiro que foi preso e flagelado regularmente na Arábia Saudita desde 2012) ao seu destino.
 
“Mas muitos cubanos também estão tristes hoje”, você pode estar pensando. “E você pode até ter razão. Pode ser que muitos cubanos derramaram lágrimas de verdade hoje, agradecidos pelas contribuições positivas de Castro em suas vidas. Mas essa prerrogativa é deles, como pessoas que viveram o próprio inferno de Castro. Não é nosso papel fazer o mesmo.”