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O Império das Luzes, por Magritte

Por Roger Scruton, no Centro de Ética & Políticas Públicas

Guerra das universidades contra a verdade

Os jovens de hoje relutam muito em assumir que algo é certo, e essa relutância é revelada em sua linguagem. Em qualquer assunto em que haja discordância, eles colocarão um ponto de interrogação no final da frase. E para reforçar a postura de neutralidade, eles inserem palavras que funcionam como isenções de responsabilidade, entre as quais a favorita é “tipo”. Você pode estar convencido de que a Terra é esférica, mas eles vão sugerir que a Terra é “tipo, esférica”?

De onde veio essa hesitação onipresente? Pelo que entendi, tem muito a ver com a nova ideologia da não discriminação. A educação moderna pretende ser “inclusiva”, e isso significa não parecer muito certo sobre coisa nenhuma, no caso de você fazer com que as pessoas que não compartilham suas crenças se sintam desconfortáveis. De fato, até mesmo chamá-las de “crenças” é um pouco suspeito. A palavra correta é “opiniões”. Se você tentar expressar suas certezas em uma sala de aula hoje, é provável que seja desconsiderado, não porque esteja errado, mas por causa da estranheza de ter certeza sobre alguma coisa e da ainda maior estranheza de querer transmitir suas certezas a outras pessoas. A pessoa com certezas é o excludente, aquele que desrespeita o direito que todos temos de formar nossas próprias “opiniões” sobre o que importa.

No entanto, tão logo a inclusividade é questionada, a liberdade é posta de lado. Os alunos parecem estar tão preparados como sempre para exigir que “nenhuma plataforma” seja dada às pessoas que falam ou pensam de maneira errada. Falar ou pensar de maneira errada não significa discordar das crenças dos estudantes – pois eles não têm crenças. Significa pensar como se realmente houvesse algo para pensar – como se realmente houvesse uma verdade que estamos tentando alcançar, e que é correto, tendo chegado a ela, falar com certeza. O que poderíamos ter tomado como mente aberta acaba por ser não-mentalidade: a ausência de crenças e uma reação negativa a todos aqueles que as possuem. O maior pecado é a recusa em terminar cada frase com um ponto de interrogação.

Tal como acontece com tantas mudanças em nossa língua e cultura nos últimos 25 anos, o objetivo é descobrir, e também proibir, as formas ocultas de discriminação. Quase todo sistema de crenças que no passado parecia objetivo e importante é agora descartado como um “ismo” ou uma “fobia”, de modo que fazem os que o sustentam parecerem fanáticos ideológicos.

Na década de 1970, quando o feminismo começou a penetrar na cultura pública, surgiu a questão de saber se não havia, afinal, distinções radicais entre os sexos, o que explicava por que os homens eram bem sucedidos em algumas esferas e as mulheres em outras. Feministas rebelaram-se contra essa ideia. Como resultado, inventaram o “gênero”, que não é uma categoria biológica, mas uma maneira de descrever características maleáveis ​​e culturalmente mutáveis. Você não pode escolher seu sexo, talvez. Mas você pode escolher seu gênero. E isso era o que as mulheres estavam fazendo – redefinir a feminilidade para reivindicar o território anteriormente monopolizado pelos homens. Posteriormente, a biologia foi removida da imagem e o gênero colocado em seu lugar.

Tão bem-sucedida foi essa estratégia que o “gênero” substituiu o “sexo” em todos os documentos oficiais, e a sugestão de que as diferenças sexuais são fixas foi relegada à classe de pensamentos proibidos. Como o gênero é uma construção social, as pessoas devem ter a liberdade de escolher o seu próprio e qualquer um que sugira o contrário é um mandão e um fanático. Mesmo uma feminista pioneira como Germaine Greer é proibida de falar no campus por receio de que sua crença em diferenças sexuais reais e objetivas não ameace estudantes vulneráveis ​​que ainda não decidiram de qual gênero são. A diferença sexual foi marcada como uma área de perigo, sobre a qual crenças, mesmo as de Germaine Greer, não são seguras.

Exatamente onde isso vai acabar, ninguém sabe. Uma a uma, todas as velhas certezas estão sendo denunciadas como “ismos” e “fobias”. Você acha que os humanos são diferentes dos outros animais? Então você é culpado de ‘especismo’. Você pensou que há uma distinção real e objetiva entre homens e mulheres? ‘Transfobia’. Você acha que as atitudes que levam ao assassinato em massa são suspeitas? ‘Islamofobia’. A única coisa certa sobre o mundo em que vivemos é que, se você acredita que existem distinções reais e objetivas entre as pessoas, é melhor ficar quieto sobre isso, especialmente se for verdade.

Roger Scruton é membro sênior do Centro de Ética e Políticas Públicas.