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Por que o Estado se interessa pela educação? A visão prevalecente, pelo menos desde o fim da última guerra, é a de que o Estado se interessa pela educação porque é o direito de toda criança recebê-la. Assim, o Estado se torna o provedor universal, e como tal deve tratar todos os seus dependentes igualmente, e não fazer favores especiais em razão da riqueza, talento ou status social.
A partir disso, por uma espécie de igualitarismo progressivo, chegamos à conclusão de que o Estado não deve fazer distinções, que as crianças não devem ser classificadas por suas habilidades e aptidões e que mesmo os exames devem reduzir os níveis ou, pelo menos não serem feito de forma a dar a impressão de serem o objetivo final. No que diz respeito à escolarização, acrescentam os educadores, nós, os peritos, somos obrigados a estar melhor informados do que os pais, que não deveriam sentir escrúpulos em entregar os seus filhos aos cuidados benéficos de um Estado que age sempre seguindo nosso sábio conselho.
A suposição é, em outras palavras, que a educação existe para o bem da criança. Na minha opinião, o Estado só se interessa pela educação porque tem um outro, e mais urgente, interesse em outra coisa: mais precisamente, o conhecimento. O conhecimento é um benefício para todos, incluindo para aqueles que não o adquirem, e não podem adquiri-lo. Quantos cidadãos poderiam construir uma central nuclear, julgar um caso na Chancelaria, ler uma concessão de terra em latim medieval, conduzir um concerto de Mozart, resolver uma equação de aerodinâmica, reparar um motor ferroviário? Nós não precisamos ter o conhecimento nós mesmos, contanto que hajam outros, os peritos, que o possuam. E quanto mais nós terceirizamos nossa memória e informações para nossos iPhones e laptops, mais esses especialistas são necessários. Se é assim, então o Estado deve garantir que a educação, por mais disponível e distribuída que seja, reproduzirá nosso acervo de conhecimento e, se possível, o aumentará.
Poderá chegar uma altura em que as crianças e seus professores deixem de ouvir falar sobre a Idade das Trevas. As pessoas podem então não mais entender que o conhecimento pode ser perdido, assim como obtido, como a nosso suprimento de conhecimento foi perdido por 400 anos, antes de ser devagar e dolorosamente recuperado. Aqui, me parece, é onde os educadores nos enganaram. O Estado, disseram-nos, tem um dever para com cada criança, e não se deve deixar nenhuma criança sentir-se inferior a nenhuma outra. Embora isso seja verdade, o Estado tem um outro e maior dever, que é um dever para com todos nós – isto é, o dever de conservar o conhecimento de que precisamos, que só pode ser transmitido com a ajuda das crianças capazes de adquiri-lo.
Para colocar a questão de forma simples, o conhecimento beneficia a criança, mas não tanto quanto a criança inteligente beneficia o conhecimento. Daí que o Estado tenha interesse na seleção, de forma que as pessoas com aptidão para o conhecimento possam ter a chance de adquiri-lo – de adquiri-lo sem as muitas distrações que vêm de estar cercado por outros que não têm interesse na vida da mente.
Tive a sorte de freqüentar uma escola de gramática, que me proporcionou o tipo de conhecimento que as pessoas da classe de meus pais não tinham facilmente a chance de adquirir. Daí eu ter desempenhado meu papel especial na absorção, processamento e transmissão do conhecimento que ainda está consagrado em nosso currículo. Encaro isso como uma justificativa para a minha existência, que eu passei para os outros algo que, se não fosse pelo tipo de educação que eu usufrui, poderia ter morrido.
Os críticos nos dizem que a seleção divide as crianças em sucessos e fracassos, e que os fracassos ficam “marcadoas para a vida”. Não vejo razão para acreditar nisso. As gerações futuras precisam de conhecimento; mas também precisam de habilidades, pontos fortes e know-how técnico. As escolas que fornecem esses benefícios – como a Technische Hochschulen alemã – são tão importantes como as escolas de gramática: e se as crianças têm a possibilidade de passar livremente  entre as escolas no processo de descobrir sua aptidão, então a seleção necessária, em qualquer caso, nunca será final.
No mundo da educação, esses pensamentos são heresias. Depois de anos de doutrinação “centrada na criança”, o estabelecimento educacional se perdeu em uma espécie de conto de fadas, acreditando que a educação é realmente uma forma de engenharia social, e que seu objetivo principal é aumentar a auto-estima do aluno. Uma vez que vemos que o objetivo primário da educação é salvaguardar o conhecimento, todos os contos de fadas dos educadores desmoronam. Por isso eles estão armados e, como tantas vezes, armados contra a verdade.
Sir Roger Scruton é um filósofo e escritor inglês, especializado em estética e filosofia polític, particularmente na promoção das visões conservadoras tradcionais. Foi sagrado cavaleiro pelos “serviços à filosofia, ensino e educação pública.”