Um vegetariano almoçando todos os dias numa churrascaria?

Um defensor dos direitos dos animais usar sapatos feitos de couro de jacaré?

Uma pessoa que defende direta ou indiretamente regimes que restringem a liberdade de expressão se utilizar de uma ferramenta que potencializa essa liberdade?

João César de Melo  enumera treze exemplos de que o Facebook representa tudo o que o socialismo rejeita.

Artigo original no Instituto Liberal.

1° – O Facebook originou-se nos Estados Unidos, não noutro país, porque a liberdade de expressão é respeitada. Qual governo da América Latina permitiria que uma pessoa comum criasse uma rede social com suas próprias políticas de privacidade e termos de uso, usada para criticar e ridicularizar políticos, formar grupos e organizar manifestações contra o governo? Nenhum. .

2° – Mark Zuckerberg e seus colegas de faculdade eram dignos representantes do que os socialistas chamam de “elite branca burguesa” − jovens alienados e pervertidos que criaram uma rede social visando promover a farra dos estudantes. Pior: Zuckerberg é judeu.

3° – Logo que sua rede foi expandida para outras universidades, Mark Zuckerberg enxergou a possibilidade de obter altos lucros e procurou investidores capitalistas que impulsionaram seu negócio até chegar à escala atual, com mais de 1 bilhão de usuários em todo o mundo. Sob a ótica marxista, Mark Zuckerberg contribui para acentuar a desigualdade social e econômica, já que ele se tornou mais um bilionário enquanto ainda existem pessoas passando fome no mundo.

4° – A falta de regulamentação estatal possibilitou o Facebook ser um importante vetor do liberalismo, com pessoas e empresas promovendo ideias, produtos, serviços e viabilizando negociações espontâneas, livres da intromissão do governo. Ou seja: o Facebook é a mais escrachada apologia à liberdade econômica.

5° – O Facebook permite que cada pessoa selecione “amigos” em função de seus interesses e preconceitos particulares, o que, sob a ótica socialista, incita discriminações.

6° – O Facebook também permite que seus usuários selecionem livremente quais grupos e causas lhes são mais interessantes, o que estimula a percepção de que não precisamos do estado para nos dizer o que é bom e o que é ruim.

7° – Completando a apologia ao livre mercado, o Facebook permite que as pessoas punam as empresas que agem de forma discriminadora ou fraudulenta. Hoje, empresas temem muito mais uma publicação crítica a seus produtos ou serviços que se torne viral no Facebook do que processos abertos na justiça estatal. Ou seja: o Facebook incita as pessoas a rejeitar o estado.

8° – Enquanto os socialistas cobram que a sabedoria estatal “democratize da mídia”, o que seria nada menos do que desmantelar os grandes veículos de comunicação à força, a gigantesca empresa capitalista chamada Facebook possibilita que qualquer cidadão do mundo seja um repórter, desminta a grande imprensa e denuncie o governo. Graças ao Facebook, a opinião pública é cada vez mais formada pelo conjunto de publicações de pessoas comuns dispersas por toda a sociedade − mais uma vez, contrariando a ideia socialista de controle da imprensa para “proteger a sociedade” de supostas manipulações.

9° – Para o desespero dos socialistas, as ações dos governos ao redor do mundo estão sendo cada vez mais pautadas pela opinião de cidadãos comuns a partir do termômetro do Facebook, reduzindo o movimento sindical ao ridículo.

10° – O Facebook comprova a eficiência das iniciativas privadas de solidariedade. Pessoas comuns podem sensibilizar a sociedade com muito mais facilidade do que governos. Por meio de simples publicações, podem chamar a atenção de milhões de pessoas ao redor do mundo sobre questões ambientais, humanitárias, políticas e econômicas numa escala muito maior do que métodos típicos da esquerda como parar o trânsito, vandalizar a cidade e incitar a violência.

11° – Enquanto os socialistas insistem que o estado deve ser o principal promotor da arte, o que acaba privilegiando os artistas “bem relacionados” e aqueles enquadrados num ou noutro grupo pré-identificado pelo governo − geralmente vinculados à esquerda − o Facebook possibilita que qualquer artista, independentemente de sua ideologia, religião, “raça” ou opção sexual divulgue seu trabalho, conquiste público e ganhe dinheiro.

12° – Lembrando que o Whatsapp pertence ao Facebook, foi o aplicativo, e não as regulações governamentais, que obrigaram as tradicionais empresas de telefonia a melhorar e baratear seus serviços, comprovando definitivamente que só a liberdade econômica qualifica as relações de mercado.

13° – Mark Zuckerberg se diz de esquerda. Ele pode se enxergar e dizer o que quiser, e isso por si só torna evidente o valor do capitalismo, que não cobra bajulações, fidelidade ou apologias. Mesmo alguém como Zuckerberg, que critica o capitalismo, pode criar uma das empresas mais capitalistas do mundo – sem distribuir igualmente suas ações aos bilhões de “proletários” do mundo, claro, afinal socialismo bom é só com o dinheiro alheio.

Contudo, lembro aos socialistas que nada os impede de substituir o Facebook por uma rede desenvolvida e viabilizada por eles mesmos. Uma nova a revolucionária ferramenta de interação social sem publicações fúteis, burguesas, machistas, nazistas, fascistas, racistas, opressoras ou “neoliberais”, com grupos voltados exclusivamente para a construção do socialismo e páginas de promoção e venda de produtos fabricados sem a “exploração do trabalho”. Anúncios de grandes corporações capitalistas seriam rejeitados. Publicações de mulheres e de pessoas negras, gays ou pobres seriam especialmente impulsionadas pelo Foicebook para reparar séculos de indiferença da classe burguesa.

Creio, inclusive, que a esquerda não teria dificuldades em conseguir verbas de governos para viabilizar essa nova rede. Prevejo até um lançamento simultâneo em Cuba e na Venezuela, demonstrando para todo o mundo o poder e a “independência” da América Latina.

 

João César de Melo é artista plástico formado em arquitetura, acredita no libertarianismo como horizonte e no liberalismo como processo, ateu que defende com segurança a cultura judaico-cristã, lê e escreve sobre filosofia política e econômica. Visite seu site aqui.

Ele escreve com frequência para o Instituto Liberal.