Em geral, trazemos dentro de nós uma imagem da infância ideal, daquela em que o acolhimento e as demonstrações de amor foram perfeitos. Essa imagem, muitas vezes, poderá ser projetada nos outros e lamentando-nos por um ideal, idealizamos relacionamentos e aumentamos a nossa solidão e dor. Por detrás dessas imagens da infância real e da infância ideal está a imagem da criança interior divina, que brota da camada arquetípica mais profunda de nosso ser.

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A criança interior divina tem a inocência, a espontaneidade e o anseio profundo da alma humana de expandir-se e crescer. Às vezes, essa criança interior faz exigências muito intensas, apresentando-se enquanto emoções: ansiedade, depressão, raiva, conflito, vazio, solidão, ou sintomas físicos. A força vital e natural desse arquétipo* pretende e necessita do nosso reconhecimento e ao ser ignorada pode acarretar sérias consequências quando adulto. Quando não fomos devidamente valorizados enquanto crianças, diminuímos o valor da nossa criança interior e assim mantemos as vivências de nossa infância e o seu sofrimento.
Para encontrar essa criança abandonada o mais indicado é através do processo analítico, ou seja, da psicoterapia com base no inconsciente, amparando essa criança e compreendendo os seus sentimentos, pois a “cura” só acontece quando lamentamos os nossos sentimentos mais íntimos. Assim, desenvolvemos a função transcendente, que nos conduz à revelação do essencial no homem. No início não passa de um processo natural. Carl Gustav Jung deu a esse processo o nome de ‘processo de individuação’, o qual parte do pressuposto de que o homem é capaz de atingir a sua totalidade, isto é, a de que pode curar-se. Essa cura pode ser obtida quando se encontra essa criança, inúmeras vezes abandonada, mas que nem sempre conseguimos reconhecer a sua existência, principalmente pelo facto da resistência e de algumas máscaras que vamos desenvolvendo no decorrer da vida; os tais mecanismos psíquicos de defesa que nos distancia de nosso verdadeiro ‘Self’.
O primeiro passo no ‘processo de individuação’ é explorar a “máscara”, pois embora tenha funções protectoras importantes, ela é também uma forma de esconder o ‘self’, nosso verdadeiro eu, o inconsciente e tudo o que ele contém em si.

*Arquétipo: conteúdos do inconsciente coletivo.