Ter desviado o foco da instrução – da gramática e matemática para a formação cidadã – parece ser a causa do baixo desempenho dos alunos. E dos cidadãos.

Artigo de Rolf Kuntz, condensado de O Estado de São Paulo

O fracasso na educação pode ser a síntese de todos os fracassos do Brasil neste começo de século. A ilusão do avanço e a queda na realidade foram marcadas em duas capas famosas da revista The Economist – na primeira, o Cristo Redentor subindo como um foguete, na segunda, despencando de cabeça para baixo. Uma fantasia permanece, no entanto, em alguns discursos políticos e, talvez, na mente das pessoas mais crédulas. Ainda se fala sobre o resgate de dezenas de milhões de pessoas da pobreza.

Quantos desses milhões se tornaram mais capazes de ganhar a vida no mercado apenas com suas habilidades e seu esforço?

Porque eles passaram a consumir graças à transferências de dinheiro por mecanismo fiscal e à elevação real do salário mínimo por decisão política, o Brasil ainda é conhecido por seus indicadores de pobreza e desigualdade, mesmo depois das alardeadas façanhas do populismo e da melhora de alguns números. Mas houve mesmo tanta melhora?

O marquês de Condorcet, já há 200 anos, defendia a saída da pobreza por meio da instrução: “um meio de tornar real a igualdade de direitos”. É inútil, segundo ele, proclamar essa igualdade quando a ignorância mantém um homem na dependência do saber de outros. Por isso, “a instrução pública é um dever da sociedade em relação aos cidadãos”.

A fim diagnosticar os problemas nessa instrução, criou-se o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes – Pisa – que avalia os alunos na fase final de educação obrigatória, a fim de constatar se obtiveram os conhecimentos e competências essenciais “à plena participação em sociedades modernas”. O objetivo principal do teste este ano foi medir a qualificação para o exame de questões científicas e a capacidade de achar soluções para problemas novos.

Os estudantes brasileiros, como sempre, foram muito mal. Conseguiram em ciências 401 pontos, muito abaixo da média geral (493) dos alunos dos países da OCDE, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico.  Colômbia, México e Uruguai gastam menos que o Brasil por aluno e conseguem resultados melhores. O Chile, com despesa média praticamente igual, obteve 477 pontos em ciência. Enquanto isso, o debate brasileiro continua centrado no tamanho do gasto em educação.

No ranking de competitividade mundial, o Brasil ficou em 81.º lugar entre 138 países.  No ano anterior, estava na 75.ª posição.  Além disso, o Brasil tem sido regularmente mal classificado em questões estruturais, como tributação, infraestrutura, educação e formação de mão de obra.

Embora o Brasil seja uma das dez maiores economias do mundo, continua em 25.º entre os exportadores. Esses dados dão razão a Condorcet. É séria, no Brasil, a conversa sobre igualdade e cidadania?