Um filme de Woody Allen, outro com o excelente Russel Crowe, ilustram como a diversão, a arte, a economia e a moral determinam a política, neste artigo-aula de  Alexandre Borges. Você pode ler o artigo completo aqui.
Saiba como dar seu apoio a Alexandre Borges aqui: https://www.patreon.com/alexborges
A batalha cultural é a primeira e a mais importante de todas na luta política
[…]
Suzane vonRichtofen […] era herdeira natural dos pais e com a morte deles entraria no seleto clube de milionários do Brasil com menos de 20 anos de idade, livre para viver com Daniel e sem o incômodo dos pais que proibiam a relação. Se não tivesse sido descoberta, a decisão de Suzane de adiantar o recebimento da herança seria, numa visão puramente econômica, “racional” e utilitarista, justificável. Um adiantamento de recebível sem juros e taxas bancárias.
[…]Há um filme em que o rapaz casa com uma moça rica, sua amante engravida, se recusa a abortar, e ameaça contar para a esposa. Ele a mata para manter o casamento e a riqueza.[…] O assassino tomou uma decisão que, considerando apenas seus ganhos financeiros, é difícil de ser contestada.

Os crimes cometidos por Suzane von Richthofen na vida real e [o marido] na ficção são repulsivos porque atingem diretamente o código moral e ético da sociedade que produziu ambos. Qualquer discussão econômica sobre os dois casos é impossível ou fútil se não levar em conta a dimensão moral envolvida.

[…]

É exatamente por entender a importância da economia que todos os defensores da civilização ocidental e do liberalismo precisam aprender de uma vez por todas como explicar a validade de suas idéias e os resultados obtidos por elas numa linguagem persuasiva e cativante, que ajude o cidadão a entender, dentro da guerra de narrativas políticas que é exposto diariamente, qual lado merece seu apoio.

“No princípio era o Verbo.”

João 1, 1

Os livros mais influentes da história (Bíblia, Bhagavad-Guitá, Alcorão, I-Ching e Tao Te King) são repletos de parábolas e narrativas morais. O poder incomparável de persuasão, a capacidade de atração de fiéis e de conversão de descrentes destas obras fala por si.

A revolução cubana, antes de ser um movimento político, é provavelmente o mais importante e bem sucedido caso de relações públicas da história. Sem uma estratégia profissional de comunicação, a tomada de poder por Fidel, Raul Castro e Ernesto “Che” Guevara nunca teria acontecido.

Durante a década de 50, Fidel Castro recebeu dinheiro e apoio de cubanos radicados nos EUA, insatisfeitos com o governo de Fulgencio Batista.

Enquanto financiavam Fidel e subornavam militares do círculo mais próximo de Batista, os mesmos grupos faziam uma complexa operação de desinformação que, usando os principais jornais americanos como o The New York Times e o Washington Post, minavam o apoio do presidente cubano na opinião pública e no governo dos EUA, até que ele fosse largado à própria sorte.

Quatro meses após o golpe, em abril de 1959, Fidel Castro visita os EUA num tour conduzido por uma das mais importantes empresas de relações públicas americanas, convidado por uma associação de jornalistas. O novo ditador cubano foi recebido como rockstar e, numa visita à sede do The New York Times, agradeceu os jornalistas dizendo que, sem eles, a revolução nunca teria sido bem sucedida.

Toda mitologia criada em torno do facínora cubano e sua revolução foram fundamentais não apenas para a derrubada do regime anterior como para a manutenção de seu governo genocida até hoje, 58 anos depois. No ano passado, Barack Obama visitou a ilha para prestar reverência a Raul Castro que, acintosamente, recusou um simples aperto de mão dele.

[…]
“Deixe-me escrever as canções de um povo — não me importo com quem escreve suas leis.”
Andrew Fletcher (1655–1716)
Somos seres morais. Nossas decisões são diretamente influenciadas por códigos de conduta que transcendem a razão utilitarista, o interesse individual puramente egoísta que quer maximizar ganhos em cada ação a despeito de prejuízos a terceiros. O altruísmo, a empatia e a solidariedade não são bugs no sistema da psiquê humana mas funcionalidades evolutivas.
[…]
Países com maiores índices de liberdade econômica como EUA, Canadá, Nova Zelândia, Inglaterra, Noruega e Austrália figuram nas mais altas posições do ranking de solidariedade (em vermelho no mapa abaixo), enquanto nações mais estatistas e intervencionistas (em azul) como Rússia, China, Venezuela e Grécia ocupam as colocações mais baixas. Não é coincidência.
Existe uma correspondência direta e inegável entre mais estado e menos solidariedade individual, confiança, associação e cooperação social em qualquer nação. Alexis de Tocqueville encerrou a questão em Democracia na América, publicado há duzentos anos e até hoje o melhor livro escrito sobre o país.
A idéia de que mais liberdade leva ao egoísmo é simplesmente absurda, fruto de uma leitura pedestre de Adam Smith
[…]
8:11′ Adam Smith: Teoria dos Sentimentos Morais   https://www.youtube.com/watch?v=VlbhcE51T10
A matemática também se interessou por entender como decisões individuais estratégicas acabam influenciadas por outros participantes (ou jogadores) de um mesmo sistema. Você certamente se lembra da Teoria dos Jogos por conta de Uma Mente Brilhante, grande vencedor do Oscar de 2002 com Russell Crowe no papel de John Nash.

A Teoria dos Jogos busca desenvolver modelos matemáticos que ajudem na compreensão de como agentes participantes de um sistema de decisão competem e colaboram buscando o melhor retorno individual. É um guarda-chuva teórico usado não só na biologia mas até em ciências da computação e na política.

Um estudo curioso desenvolvido pelo matemático alemão Thomas Apolte, usando o ferramental da Teoria dos Jogos, sugere que muitas ditaduras duram porque, mesmo que toda sociedade queira se livrar do regime, o custo individual de se jogar numa revolução é alto demais.

2:55 Homem contra tanques na praça da Paz Celestial https://www.youtube.com/watch?v=YeFzeNAHEhU

Quando ninguém está disposto a se sacrificar e fazer protestos, organizar movimentos oposicionistas e tentar derrubar o governo, a ditadura vai perdurando mesmo contra a vontade majoritária da população. A nação empobrece, enfraquece e morre sem reagir.

Sem heróis, indivíduos que, por definição, buscam melhorar a vida de terceiros colocando a própria segurança em risco, a sociedade se torna refém de totalitários e tende ao declínio e à extinção.

“A invenção da poltrona acabou com o herói.”
Millôr Fernandes
Nassim Nicholas Taleb, um dos mais instigantes pensadores da atualidade, contribuiu de maneira inestimável com a discussão ao criar o conceito de “antifragilidade”, a idéia de que um sistema “robusto”, que é resisliente e resistente aos impactos, é inferior ao “antifrágil”, aquele que melhora ao ser atingido. O “robusto” sobrevive à incerteza, à volatilidade e ao caos, o “antifrágil” se alimenta deles.

A idéia de antifragilidade é uma ferramenta poderosa para entender a superioridade do capitalismo sobre qualquer outro sistema econômico. Cada empresa privada é “frágil”, exposta ao risco de falir a qualquer momento por razões de mercado, e muitas realmente fecham.

Quando uma empresa encerra suas atividades, seu desaparecimento fornece informações úteis para tornar os concorrentes e o mercado, como um todo, mais fortes. Um sistema que se alimenta da volatilidade para ganhar solidez é, por definição, antifrágil. Para uma introdução ao pensamento de Nassim Nicholas Taleb, leia “A Importância de ser um Flaneur”, de Martim Vasques da Cunha.

Abrir uma empresa, inovar, competir, investir, produzir, servir o consumidor, vencer pelo mérito, trabalho duro e assumindo a responsabilidade individual das decisões, são atividades humanas que decorrem de escolhas éticas e morais de uma sociedade que aceita, incentiva e premia o sucesso individual. E é por isso que o capitalismo é um fenômeno tão raro e recente na história da humanidade.

3:18 Por que 99% da riqueza do mundo veio em 1% da história?  https://www.youtube.com/watch?v=aeJWQzpawmQ

Para a historiadora e economista Deirdre McCloskey, foi a vitória dos “valores burgueses”, um fenômeno sociológico e cultural surgido na Holanda do séc. XVII e logo depois espalhado pela Inglaterra do século seguinte, que possibilitou a Revolução Industrial, as democracias liberais e o que se entende hoje por capitalismo. Mercados sempre existiram, mas o que é único no liberalismo, para ela, é a aceitação da burguesia e de seus valores éticos e morais: “a economia não tem como explicar o mundo moderno”, como resume Deirdre McCloskey.

Um dos intelectuais mais populares sobre a moralidade humana e psicologia social hoje é Jonathan Haidt, que você provavelmente conhece das suas popularíssimas palestras no TED. Haidt não tem dúvida de que “a moralidade é uma capacidade humana extraordinária que fez a civilização possível” e que nós não somos apenas morais mas “intrinsecamente moralistas e críticos”.

18:16  Jonathan Haidt: Religião, evolução e o êxtase da autotranscendência  https://www.youtube.com/watch?v=2MYsx6WArKY

Haidt explica que é nossa mente moral, que busca honra, justiça e ética, que possibilitou ao homem criar os vastos e complexos sistemas de cooperação social que chamamos de sociedade e nação. É o compartilhamento de uma cultura comum que “cola” os indivíduos em relações de confiança e que possibilitam o surgimentos de mercados dinâmicos e prósperos.

Suas pesquisas mostram que o primeiro impulso humano é fazer o que ele chama de “racionalização moral” sobre qualquer assunto e só depois construímos outros argumentos para justificar nossas decisões, opiniões e julgamentos. Haidt reconhece que a “racionalização moral” não é sempre um instrumento para a busca da verdade, muitas vezes ela tenta justificar nossas ações ou defender o grupo social que pertencemos. Sem compreender a mente humana, é impossível persuadir alguém de qualquer assunto.

Outro defensor fundamental da idéia de “seleção de grupo” e da importância da transmissão dos valores morais numa sociedade é ninguém menos que Friedrich von Hayek, vencedor do Nobel de 1974 e um dos nomes mais reverenciados e cultuados em toda tradição da Escola Austríaca de economia.

Hayek trabalhou por mais de três décadas a teoria da evolução cultural e moral de uma sociedade como fundamental para a construção da “ordem espontânea”, idéia basilar de todo pensamento hayekiano e que justifica e fundamenta sua defesa do liberalismo.

Em resumo, Hayek defendia que a evolução de um grupo social, assim como acreditava Charles Darwin, era baseada na sua cultura e tradições que davam aos indivíduos um ferramental indispensável para prever o comportamento de membros desconhecidos do mesmo grupo, fora do seu círculo social imediato, o que contribuía diretamente para a ordem espontânea daquela sociedade.

A capacidade de aprendizado humana pela imitação e interação social faz com que as tradições e costumes sejam naturalmente construídos e transmitidos entre os indivíduos do grupo, especialmente as normas e regras básicas de convívio que regem as relações. Estas normas são instrumentos evolutivos tão importantes para o grupo quanto uma vantagem competitiva de um animal contribui para a preservação da própria espécie.
“O verdadeiro soldado não luta por ódio do que está à frente, mas por amor ao que deixou para trás.”
G. K. Chesterton

Regras e costumes sociais aceitos por um grupo, com o tempo, competem com normas de outros grupos até que os vencedores se transformem em tradições e formem uma “cultura”. Esta cultura é impossível de ser criada ou concebida por indivíduos isoladamente, ela é o produto natural e espontâneo de incontáveis tentativas e erros que foram sendo testadas e incorporadas a partir dos seus resultados reais, formando e avançando a ordem social e civilizatória.

Para Hayek, portanto, a cultura de um grupo social é um conhecimento superior ao pensamento individual isolado, informação que pode chocar alguns e que nunca deve ser confundida, no extremo oposto, com uma defesa de regimes “coletivistas” que constróem ordenamentos sociais e legais heterônimos e arbitrários.

[…]
0:09 Barak em comício  https://www.youtube.com/watch?v=oKxDdxzX0kI
Legenda: “Estamos a cinco dias de transformar fundamentalmente os Estados Unidos da América”
A ordem espontânea é o exato oposto do tipo de relação social de regimes de matriz socialista em que o que prevalece é a decisão autocrática da burocracia estatal ou do líder do governo.
Quando um político declara querer criar um “novo homem” ou “transformar fundamentalmente” seu país, como Barack Obama dias antes de assumir a presidência, ele quer dizer que rejeita a cultura, as tradições e a ordem construída ao longo de gerações daquela sociedade e que devem ser substituídas por suas próprias visões e utopias.
“Cultura é a correnteza que deságua na política.”
Andrew Breitbart
Quando se diz que cultura e educação são os temas políticos mais importantes, muitos liberais entendem equivocadamente como uma tentativa de ignorar a relevância e urgência de outras questões como as econômicas nos debates. Não é nada disso.
[…]
 O próprio Marx, desde o Manifesto Comunista, já reconhecia a capacidade do capitalismo de criar riquezas.

O argumento econômico de Marx foi desossado por Ludwig von Mises em 1920, mas a idéia de que o capitalismo é um sistema imoral que enriquece ganaciosos e espertalhões, gente abjeta que ninguém quer ver com poder e sucesso, não dá sinais de que vai morrer tão cedo. E é ela que atrai tantos desavisados para a esquerda.

A construção do mito do capitalismo cruel e explorador é originado especialmente na cultura e nas artes, desde o tempo de Marx até hoje em Hollywood, na literatura, nas novelas e minisséries. […]

a mente humana é antes de tudo moral e tanto as crenças político-ideológicas como as escolhas do dia a dia são ancoradas no entendimento do que é certo ou errado, justo ou injusto, bom ou mau, o que precede a consideração utilitarista sobre se vou “levar vantagem” como indivíduo.

O capitalismo, a partir dos “valores burgueses” que contribuem para a “seleção de grupo” das sociedades que adotam o sistema, permite que os indivíduos e organizações que prestam os melhores e mais úteis serviços à sociedade recebam o reconhecimento e a retribuição da própria sociedade diretamente comprando seus produtos, realimentando e fortalecendo todo o sistema.

[…]

Edmund Burke, o pai do conservadorismo moderno, resumiu brilhantemente a idéia quando disse que “a sociedade é uma parceria entre os mortos, os vivos e os que ainda vão nascer”. Um povo que não entende e não respeita o legado dos antepassados, não cuida da segurança e da liberdade dos vivos e cria dificuldades e embaraços para as gerações seguintes, constitui um grupo disfuncional e fadado ao fracasso no longo prazo.

Uma sociedade moral e solidária é uma conquista evolutiva que deve ser celebrada por todos. Ela não é incompatível ou contrária ao liberalismo, muito pelo contrário, foi a civilização ocidental, com seus valores judaico-cristãos, que deu à luz as sociedades mais livres e prósperas da história.

O investimento na construção de narrativas na cultura, nas artes e no ensino pelos liberais não é apenas desejável, é um passo fundamental para que a opinião pública incorpore os valores que dão convicção e confiança de que ela está no caminho certo, ético e moral para construção de um mundo melhor.

Fonte:
https://medium.com/@alexborges/pol%C3%ADtica-divers%C3%A3o-e-arte-d0039f23816e#.9bfguklkh