INTRODUÇÃO

Temos como pressuposto fundamental trabalhar como se forma o indivíduo no ser do homem, no entanto para isso é relevante examinarmos algumas obras de Soren Kierkegaard que não somente escreveu a respeito, mas viveu ao extremo a questão da singularidade. Kierkegaard demonstrou em suas ricas obras que a existência corresponde a realidade singular de cada um. Homem altamente reflexivo, quê pesquisado por exegetas fiéis como France Farago, em sua obra Compreender Kierkegaard, diz que o autor da singularidade reunido muitas vezes entre colegas disse: “acabo de voltar de uma sociedade onde eu era a alma – escreve 1836 -: As Palavras espirituosas jorravam de minha boca, todo mundo ria me admirava, mas eu me retirei…fui embora e queria me matar com um tiro. Morte e inferno, posso abstrair tudo, mas não de mim mesmo; não posso esquecer de mim mesmo nem quando estou dormindo .(FARAGO, 2006, p.36). O problema é o individuo que não tem a capacidade de se “abstrair” de si mesmo, nem quando está no papel de alegrar pessoas, para Kierkegaard diz Farago: “nem o humorista pelo sorriso velado de tristeza”, é pelo fato de haver um sofrimento escondido por trás do humor , sofrimento que não provém de nenhuma causa externa, mas é inerente ao próprio fato de existir. (FARAGO, 2006, p.40 e 41). O eu é indestrutível é como o “demônio de Sócrates, está sempre ali nos perturbando de alguma forma e cada um tem o seu, e não adianta misturar-se ao mundo isso não aniquilará a presença desse demônio chamado eu. (KIERKEGAARD, 2006).
Segundo Kierkegaard, o homem é uma síntese de infinito e finito, temporal e eterno até ai não está formado nele o “eu” afirma ele em “a doença mortal”. Porém quando os dois termos se relacionam a própria relação entra como um terceiro, como unidade negativa, e cada um daqueles termos se relacionam com a relação, tendo cada um existência separada no seu relacionar-se com a relação, acontece assim com respeito a alma, sendo a ligação da alma e do corpo uma simples relação e se a relação se conhece a si mesma, esta ultima que se estabelece é um terceiro termo positivo, e temos então o “eu”.
(KIERKEGAARD, 2007).

O “eu’ nunca consegue em Kierkegaard o equilíbrio ou o repouso nessa síntese o “eu” vive as inquietações da existência então, no cenário surge a “doença mortal” que nesta acepção Kierkegaard denomina desespero, segundo ele enfermidade do eu, em analogia Kierkegaard diz: “o corpo morre de doença” ilusão! No desespero, o homem continuamente se transforma em viver, ou seja quem desespera não pode morrer, dessa maneira, como um punhal não serve para matar pensamentos, também o desespero verme imortal, fogo inextinguível, não devora a eternidade do “eu” que é o seu próprio sustentáculo. (KIERKEGAARD, 2007, p.24).

A ANGÚSTIA E A LIBERDADE

Em o conceito de angústia o próprio Kierkegaard, vai afirmar, “o homem é um indivíduo e, assim sendo, é ao mesmo tempo ele mesmo e toda humanidade, de maneira que a humanidade inteira participa do indivíduo, do mesmo modo que o indivíduo participa de todo gênero humano. (KIERKEGAARD, 2007, p.36). Está afirmação declara mais do que foi dito, pois ao ser indivíduo tem-se liberdade, o animal não tem liberdade é determinado pelo instinto somente o indivíduo é livre. A realidade da liberdade para Kierkegaard é o puro possível que é experimentado como angústia, por essa razão não se encontra no animal conseqüentemente ele não sente angústia, para Kierkegard a angústia, fica também suspensa no sono, e o sonho traz a sugestão dela como o vago nada. (KIERKEGAARD, 2007, p.50)

Kierkegaard para falar da liberdade e por sua vez da angústia que tem como pano de fundo o mito da queda de Adão, pois o seu conceito de angústia antes de ser filosófico tem um substrato teológico da dogmática cristã que ele não prescindia, por isso diz que Deus no Gênesis ao proibir Adão de comer da arvore do conhecimento do bem e do mal despertou em Adão uma “inquietação” , pois a possibilidade da liberdade se ofertava a inocência, portanto a angústia em Kierkegaard aparece antes da queda, pois o ato de escolha se torna angustiante, sendo assim, a angústia do homem é ontológica e não uma patologia, portanto todo ser a possui. Kierkegaard aprofunda a discussão teológico-filosófica dizendo que Adão não entendeu o que era a morte ou quê significa morrer pois estava no estado de “inocência” mesmo que a proibição lhe provoca-se temor, entretanto, não entendeu a situação que coloca o diante da ambigüidade da angústia , a possibilidade incomensurável de poder lhe invadiu a alma. Para Kierkegaard a angústia é uma medida da grandeza humana, a angústia é a “vertigem” da liberdade humana, e é comparado a vertigem por que o olhar imerge em um abismo e existe uma vertigem que nos chega tanto do olhar como do abismo, visto que nos seria impossível deixar de o encarar, esta é a angústia, “vertigem da liberdade”, que surge quando, ao desejar o espírito estabelecer a síntese, a liberdade imerge o olhar no abismo de suas possibilidades e agarra-se a finitude para não soçobrar. (KIERKEGAARD, 2007, p.74)

Em Kierkegaard o nexo ontológico entre liberdade e angústia são tão viscerais a ponto do homem não identificá-los ou distingui-los em primeira análise, mas como precedeu-se, Kierkegaard afigurava-se a si mesmo como uma criança trazida ao mundo no meio de grandes dores e não poderia esquecer essas dores, reflexos em sua vida de angústia e liberdade vivida ao extremo. (KIERKEGAARD, 2003).

ÉTICA E INDIVÍDUO

Kierkegaard, investiga o paradoxo proposto como ninguém na obra Temor e Tremor, onde mais uma vez usa como pano de fundo para sua filosofia a narrativa bíblica da historia de Abraão e como ninguém disse: “os grandes homens hão de permanecer na memória dos pósteros, porém cada qual deles foi grande pela importância do que combateu. Pois aquele que combateu contra o mundo, foi grande no seu triunfo sobre o mundo, mas o que lutou consigo mesmo foi grande pela vitória alcançada sobre si. (KIERKEGAARD, 2008,p.12). o individuo é sobre si mesmo que deve lutar e simultaneamente contra o geral que o oprime, Abraão sentiu a dor da renuncia total ao que mais amava no mundo entretanto ele como individuo saboreia o finito e diverte-se com a calma angustiante de entender, que nada existe de mais certo que este mundo finito. (KIERKEGAARD, 2008, P.34). o indivíduo se auto-afirma, no entanto, a moralidade por si mesma está no geral e sendo ela própria o télos (fim) de tudo quanto lhe é exterior. A missão do individuo é abandonar-se no geral mas quando o individuo se lança no geral se sente inclinado a pedir de volta a sua individualidade, e diante dessa crise pergunta se é possível suspender teleologicamente a moral? Em Kierkegaard a fé diante desse paradoxo coloca o indivíduo acima do geral, em temor e tremor Kierkegaard vai dizer que a fé de Abraão vai suspender a ética por amor a Deus e por conseguinte por amor a si própria. Abraão na qualidade absoluta de individuo se relaciona em sua absolutez com o absoluto, e a fé para ele é uma paixão , onde o interior é superior ao exterior, onde o indivíduo e sua ipseidade tem nesta história paradoxal razão, e em Kierkegaard o indivíduo determina a sua relação com o geral tomando como referência o absoluto, e não a relação ao absoluto com referência ao geral, então aparece no cenário duas figuras a saber, o herói trágico que renuncia a si próprio para dar expressão ao geral e o cavaleiro da fé que renuncia ao geral para transformar-se em indivíduo. (KIERKEGAARD, 2008).
Por conseguinte entende-se que o indivíduo, sua angústia, finitude, tribulação, e fé somente importam no conceito kierkegaardiano.

CONCLUSÃO

Kierkegaard, foi autor que teve como tema implícito em suas obras uma coisa a saber, “a verdade é a subjetividade”, e esta, ele a viveu e morreu por ela, prova disso foi o rompimento do seu noivado com Regina, em um mundo onde o pudor, a moral e respeito ao noivado só deveria ser rompido se houvesse descumprimento dos fatores supracitados doutra maneira era um escândalo romper um noivado do nada, mas Kierkegaard acabou com a aliança sem razão externa, e simultaneamente com toda razão, a saber, a sua interioridade, o viver a sua existência ou solidão existencial co-pertecente a todos homens que pensam que por estar acompanhados de filhos, netos, irmãos, pais ou cônjuges estão amparados, mais não; todo homem, nasce só, vive só, e
morre sozinho, não existe contra-argumentação em relação a essa realidade, todos possuem uma eterna solidão existencial , e Kierkegaard veemente e extraordinário rompe com a ética hodierna e assume a angústia de existir sem dividi-la com Regina, pois tal existência, tal angústia, tal liberdade são para ele categorias indivisíveis.
(KIERKEGAARD, 2006)

REFERÊNCIAS

ARANHA, Maria Lúcia de A.; MARTINS, Maria Helena P. Filosofando: Introdução a
Filosofia. 1. ed. São Paulo: Moderna, 1986.
BLAISE, Pascal. Pensamentos. São Paulo: Abril Cultural, 2005.
FARAGO, France. Compreender Kierkegaard. Petrópolis: Vozes, 2006.
KIERKEGAARD, Soren. Diário de um Sedutor. São Paulo: Martin Claret, 2006.
O Desespero Humano. São paulo: Martin Claret, 2007.
È Preciso Duvidar de Tudo. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
Temor e Tremor. São Paulo: Hemus, 2008.
O Conceito de Angústia. São Paulo: Hemus, 2007.
O Conceito de Ironia. Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2006.
MONDIN, Batista. O Homem Quem é ele? São Paulo: Paulus, 1980.
Migalhas Filosóficas. Petrópolis: Vozes, 2008.